terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

O erro nos ensina permanentemente

Arnaldo Jabor, cineasta duble de articulista e comentarista de tudo, publicou hoje em sua coluna do "O Globo" (e possivelmente muitos outros jornais pelo país), um artigo intitulado: "Nunca fomos tão felizes. O escândalo permanente está nos ensinando muito", do qual pinçamos o seguinte parágrafo: "Ao contrário do simplismo de ver tudo por uma ótica “macro”, generalizante, as crises na economia mundial nos ensinaram a importância dos detalhes “micro”, das pequenas causas que derrubam um universo. É mais importante a competência indutiva que as utopias dedutivas. Uns garotos comedores de hambúrguer de Wall Street podem arrebentar o capitalismo, com mais força que os velhos leninistas. Sabemos que capital tem de ter limites. Resta saber como."
Estas palavras nos induzem à "repercussão" (palavras que os jornalistas adoram), desdobrando o parágrafo em infinitos conceitos e conclusões. Começaria, então, pelo próprio título; a simples, mas nem sempre óbvia, constatação de que o "errado" ensina, que quanto mais "erros" identificamos, maior a probabilidade de acertar. Na área da saúde este conceito sempre foi ambíguo; a prática da "tentativa e erro" ainda é muito utilizada na medicina, mas poucos admitem isso. Muito embora outras áreas do conhecimento, e sua "práxis", há muito tenham reconhecido e estudado o "erro", - e aí ainda não o estamos classificando -, no cuidado que a área de saúde se propõe realizar, muito pouco se fez.
Tão-somente no final dos anos 1990, com a publicação, pelo "Institute of Medicine" estadunidense, do livro "Errar é humano: construindo um sistema de saúde mais seguro", no qual apresenta a universalidade do erro e reaviva a condição humana de falibilidade, independentemente do dolo. Não são só os maus profissionais que "erram", mas também aqueles que diuturnamente se dedicam a fazer o bem ao próximo da melhor maneira possível.
A sutil colocação do Jabor no título do artigo, não está apenas na constatação de aprendizagem com o erro, mas também em outra afirmação sintetizada na palavra "permanente". Paul Virilo, arquiteto e filósofo francês e crítico à maneira que nós humanos estamos lidando com a tecnologia, principalmente da informação, nos lembra que bastou "inventarmos o veleiro e o navio a vapor, para inventarmos o naufrágio, que basta inventarmos o trem para inventarmos o acidente ferroviário e ainda, que ao inventarmos o automóvel de passeio, inventamos o engavetamento nas rodovias." O progresso tecnológico não prescinde pensarmos e analisarmos, profundamente os acidentes que nos trazem, sejam quais forem as causas e se há, ou não, "culpados".
Assim, também na medicina, cada vez mais tecnocientífica e menos humanística, tem-se que projetar a possibilidade do erro e, fundamentalmente, como impedi-lo, isto é, no estudo sério e sistemático de como preveni-lo. Inventamos vacinas e sugerimos muitos exames para prevenir doenças, mas nos esquecemos da iatrogenia. É imprescindível que cheguemos a Freud e nos conscientizemos, - de verdade, na alma - , de que lapsos (por "esquecimento" ou qualquer "falha" em reconhecer algo) existem e não estão sob nosso controle. Talvez, se bem compreendermos estes conceitos e reconhecer que não podemos tudo, possamos respeitar as barreiras que nos são impostas com o objetivo genuíno de "pescar" os nossos lapsos.

0 comentários:

Seguidores