Acabo de ler neste último número (364:2 - 13/01/2011) do The New England Journal of Medicine um artigo com o segunite título: "Educating Physicians to Prevent Fraud, Waste, and Abuse", assinado por Julie Taitsman, M.D. Logo em seu primeiro parágrafo, denotando uma capacidade de síntese incrível, faz uma pergunta-diagnóstico extremamente objetiva e clara: "Como você gostaria de ganhar mais sem trabalhar tanto? E emenda: "tais proposições, fazendo parte de estratégias agressivas de venda de representantes ou parceiros inescrupulosos, tem conduzido muitos médicos a problemas com a lei". Seguem-se exemplos em que médicos e enfermeiros foram penalizados pela prática desonesta de induzir o consumo exagerado de produtos no setor saúde.
A autora não deixa, obviamente, de colocar algumas "cerquinhas" já no início do segundo parágrafo quando afirma que não se trata de uma prática generalizada e que a maioria dos médicos é honesta e são respeitados, tanto por pagadores como pelos próprios pacientes. Ressalta, entretanto, que os casos "não são isolados".
No decorrer do artigo, ela desenvolve, de modo pertinente, considerações mais aprofundadas sobre a realidade estadunidense do problema, causas e consequências, além de discutir algumas ações possíveis para se evitar tal prática, mas, já chegando ao último parágrafo, deixa claro a necessidade de se educar, desde a universidade até os programas de residência médica, contra essa prática, danosa e imoral, de aliciamento, por uns, e, receptividade, por outros.
Ainda neste mesmo número do NEJM, Robert Leibenluft, que me parecer ser um juiz de direito (Juris Doctor), aprofunda o tema à luz da regulação jurídica, especialmente do ACA (Afordable Care Act), que emerge como mais um mecanismo de proteção ao paciente. Algumas são considerações muito locais, mas, tantas outras, são perfeitamente "tropicalizáveis" e deveriam ser colocadas de forma transparente nos fóruns apropriados.
O último código de ética médica elaborado pelo CFM após ampla consulta já coloca de modo evidente que o problema existe entre nós, e também não é pequeno, como sabemos. Cabe agora, às outras instituições que lidam com a prática médica e serviços de saúde, também aprofundar medidas educativas, tanto durante a formação profissional quanto na educação continuada, para que não tenhamos, depois, que padecer do pesadelo da ação judicial.

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